sábado, 9 de fevereiro de 2008

Meu Clown Laurency


"Nesses tempos de nacionalismo, que direi eu? Bem, o clown encarna os traços da criatura fantástica que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós. É uma caricatura do homem como animal e criança, como enganado e enganador. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesca, deformada, e vê sua imagem torpe. É a sombra. O clown sempre existirá, pois esta fora de cogitação indagar se a sombra morreu, se a sombra morre. Para que ela morra, o sol tem que estar à pique
sobre a cabeça.
A sombra desaparece e o homem, inteiramente iluminado, perde seus lados caricaturescos, grotescos, disformes. Diante de uma criatura tão realizada, o clown, entendido no aspecto disforme, perderia a razão de existir. O clown, é evidente, não teria sumido, apenas sido assimilado. Noutras palavras, o irracional, o infantil, o instinto, já não seriam vistos com o olhar deformador que os torna informes."

Federico Fellini


Foto: Katia Sendra Tavares